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SÊ A MUDANÇA QUE QUERES VER NO MUNDO!
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Arriscar e Vencer

Publicada por Observador@

Em certa aldeia do Benin vivam três rapazes que andavam sempre tristes. Parecia que tudo lhes corria mal na vida. Eram os três muito pobres: um possuía apenas um remo, o outro uma flecha espalmada em forma de lâmina e um arco, e o terceiro só tinha um turbante. No entanto sonhavam com uma vida rica, com tudo quanto é de bom, para poderem fazer o que lhas apetecesse. Mas sentiam-se angustiados, pois tudo não passava de um sonho. Achavam-se incapazes de fazer o que quer que fosse. E ficavam sempre à espera que fossem os outros a fazer por eles.
Um dia, um ancião da aldeia, homem de grande sabedoria, decidiu ajudá-los. Queria que eles percebessem que, mesmo sendo pobres, tinham muito valor. Por isso, lançou-lhes um desafio. Conduziu-os até um rio, que era muito fundo e disse-lhes:
- Deveis atravessar o rio para o outro lado, usando apenas o que tendes.
Ficaram muito apreensivos e interrogavam-se:
- Como podemos atravessar um rio tão fundo, se não sabemos nadar?
Passado pouco tempo, um deles encheu-se de coragem e disse aos companheiros:
- Se o velho sábio nos mandou atravessar o rio, é porque somos capazes. Cada um fará o seu melhor e vamos vencer. Decidido a dar o exemplo aos outros, foi à procura de um tronco, lançou-o à água, sentou-se em cima dele e, com o remo, começou a remar. Chegado à outra margem, cheio de satisfação, começou a incitar os companheiros para também tentarem a travessia.
O segundo, depois de pensar um pouco, viu que do outro lado do rio havia uma árvore muito alta, de tronco fino. Pegou na sua flecha e fez pontaria para a árvore. Esticou o arco com toda a força e atirou a flecha que bateu certeira no alvo. A árvore cortada pelo tronco caiu e ficou atravessada entre as duas margens. Correu então por cima dela e atravessou o rio.
Os dois puseram-se a chamar pelo outro colega. Este ganhou coragem e tirou o turbante, que era feito com uma tira de pano muito comprida. Atou-lhe uma pedra na ponta e deu-lhe um nó de correr. Depois, encheu-se de força e atirou a ponta do turbante para a outra margem conseguindo que o nó se prendesse ao ramo de uma árvore. Atou a outra ponte a um tronco da margem de cá e, agarrando-se pelo turbante conseguiu também ele atravessar o rio.
Os três abraçaram-se muito contentes e satisfeitos por terem conseguido vencer o obstáculo.
Do outro lado do rio, o sábio sorriu e disse-lhes:
- A vida é como um rio: quem arrisca e usa os recursos que possui, consegue sempre vencer.
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O Sábio Samurai

Publicada por Observador@


Perto de Tóquio, vivia um grande samurai, já idoso, que agora se dedicava a ensinar Zen aos jovens. Apesar da sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.
Certa tarde, um guerreiro, conhecido pela sua total falta de escrúpulos, apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação. Esperava que o seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para observar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro nunca tinha perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo e aumentar a sua fama. Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho e sábio samurai aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade. Lá, o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras na sua direcção, cuspiu no seu rosto, gritou todos os insultos que conhecia, ofendendo, inclusive, os seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho sábio permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro desistiu e retirou-se.
Desapontados pelo facto de o mestre ter aceite tantos insultos e tantas provocações, os alunos perguntaram: — Como o senhor pôde suportar tanta indignidade? Porque não usou a sua espada, mesmo sabendo que poderia perder a luta, ao invés de se mostrar covarde e medroso diante de todos nós?
Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente? — perguntou o Samurai.
A quem tentou entregá-lo — respondeu um dos discípulos.
O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos — disse o mestre. — Quando não são aceites, continuam a pertencer a quem os carrega consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de si. As pessoas não lhe podem tirar a serenidade, só se você permitir!
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O Grilo e a Moeda

Publicada por Observador@


Um missionário alimentava uma velha amizade com um mestre indiano. Tudo começara há muitos anos, no tempo em que ele estivera na Índia. Um dia decidiu convidá-lo para vir a sua casa. O mestre aceitou o convite e pôs-se a caminho. Para trás ficara a sua terra natal e dirigia-se agora para a Europa, onde vivia o seu amigo missionário.
Quando se encontraram fizeram uma grande festa e estiveram horas a recordar os tempos passados. O velho missionário quis mostrar-lhe a cidade e os seus lugares mais belos. A presença destas duas simpáticas figuras despertava a curiosidade dos passantes. Todos se detinham a olhar para o missionário, com a sua enorme batina preta e para o mestre indiano com o seu turbante amarelo e a pele da cor do chocolate. Ao passar junto dos jardins da cidade, o indiano estacou e perguntou ao seu amigo:
- Escuta! Ouves o mesmo que eu ouço?
Com um ar de espanto, o missionário arrebitou as orelhas o mais que pôde, mas teve que confessar que nada ouvia, a não ser o grande rumor do tráfego citadino.
- Aqui perto está um grilo a cantar, exclamou o indiano.
- Olha que te enganas - disse-lhe o missionário. Eu apenas ouço o barulho da cidade. Além disso é impossível encontrar esses animaizinhos nas grandes cidades.
Mas o indiano tanto insistiu que ambos se puseram a procurá-lo no meio dos canteiros floridos do jardim. Passados uns instantes, o indiano encontrou um lindo grilo.
- Viste que eu tinha razão?
- É verdade, admitiu o missionário. Vocês, indianos, têm um ouvido muito mais apurado que nós, ocidentais.
- Desta vez és tu que te enganas, sorriu o sábio. Ora presta atenção.
E o indiano tirou do bolso uma pequena moeda e, mostrando-se distraído, deixou-a cair ao chão. Imediatamente várias pessoas voltaram-se para o lugar donde vinha aquele som.
- Viste o que aconteceu? A moeda produziu um tilintar mais suave que o canto de um grilo. No entanto foram muitas as pessoas que ouviram esse tilintar no meio do barulho da cidade.
Naquele dia, o missionário aprendeu uma lição: A nossa atenção está posta onde temos os nossos interesses..
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Boas Férias!

Publicada por Observador@

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Falsas Amizades

Publicada por Observador@

"Dois amigos caminhavam juntos pela mesma estrada, conversando despreocupadamente. Atravessavam uma sombria e perigosa floresta. Entretidos nas suas conversas, não se apercebiam dos perigos que os espreitavam.
Repentinamente um urso enorme e ameaçador saltou à frente dos dois homens. Um deles, tomado pelo medo, desatou a correr e subiu aos ramos mais altos de uma árvore e ali se deixou estar escondido. O outro não teve tempo de fugir e dando-se conta da sua incapacidade de enfrentar a fera enfurecida, deixou-se cair por terra, fingindo estar morto. Ele sabia que os ursos não tocam nos mortos.

Quando o urso se aproximou, cheirou-o por todos os lados e grunhiu junto às orelhas. Com o focinho ainda tentou mexê-lo. O infeliz homem sustinha a respiração o mais que podia para não atrair o animal. Depois de várias tentativas para o experimentar, o urso convenceu-se de que efectivamente o homem estava morto e foi-se embora.
Assim que viu o urso desaparecer entre as árvores, o homem que estava escondido em cima da árvore desceu. Desconhecendo os hábitos dos ursos perguntou ao amigo: - O que é que o urso te disse ao ouvido?
Rindo-se interiormente, o amigo respondeu-lhe: - O urso disse-me para não viajar nunca com certos amigos que no momento do perigo, em vez de ajudarem, fogem mais que o vento."
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Os Dois Remos

Publicada por Observador@


"Nas margens de um grande rio, entre montanhas, um velho barqueiro esperava as pessoas para as transportar no seu barco para a outra margem. Era uma pessoa de poucas palavras, mas no seu rosto reflectia-se alguma da majestade das montanhas e da transparência das águas do rio.
Um dia chegou um jovem que andava perdido por aquele vale. Estava acostumado apenas ao asfalto e ao ruído da cidade e pediu ao velho barqueiro que o levasse para a outra margem. Ele aceitou e, sem dizer uma palavra, pôs-se a remar. Enquanto avançavam, o jovem, sempre curioso, deu-se conta de que num dos dois remos se podia ler a palavra "Deus". Não conseguia ler as outras letras, porque estavam quase apagadas.
Incomodado pela palavra "Deus", que lhe parecia fora de moda, começou a dizer:
- Hoje o ser humano com a sua razão descobriu os segredos do mundo e da vida. Não precisa de Deus.

O ancião calou-se. Pegou no remo em que estava escrita a palavra Deus, pousou-o no barco e continuou a remar só com o outro, no qual estava escrita a palavra "Eu". Naturalmente não conseguiu avançar; o barco começou a dar voltas sobre si mesmo, sem sair daquele pequeno círculo no qual se movia, e a ser arrastado pela corrente. O jovem ficou pensativo. O velho barqueiro interrompeu o silêncio:
- Sozinhos não vamos a lado nenhum. Necessitamos de Deus para podermos avançar e ir mais além do que o nosso amor próprio e o nosso egoísmo."
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(Manuel Nobre)
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Ninguém se salva sozinho

Publicada por Observador@


"Seis náufragos encontraram-se numa ilha deserta, cada qual com um pedaço de madeira na mão. Não havia outra lenha nessa ilha perdida nas brumas do Mar do Norte. Ao centro do grupo, uma fogueira morria lentamente por falta de combustível. O frio era cada vez mais insuportável.
A primeira pessoa era uma mulher. Uma faúlha iluminou diante dela o rosto de um imigrante de pele escura. Com o punho apertou bem apertado o seu pedaço de madeira. Porque haveria de consumir a sua acha para aquecer alguém que tinha vindo para lhe roubar o pão e o trabalho?
O homem que estava a seu lado observou outro que não era do seu partido. Jamais gastaria o seu pedaço de madeira em favor de um adversário político.
A terceira pessoa estava ali muito mal vestida e embrulhada no seu capote besuntado, escondendo também a sua lenha. O vizinho era certamente rico. Porque é que devia usar a sua acha para aquecer semelhante rico avarento?
O rico estava sentado a pensar nos seus bens, nas suas duas quintas, nos seus quatro automóveis e na sua choruda conta bancária. As baterias do seu telemóvel já estavam descarregadas, tinha que conservar a sua acha, custasse o que custasse, e nunca a iria gastar para gente tão preguiçosa.
O rosto negro do imigrante era um raio de vingança na luz mortiça daquela fogueira. Sabia que todos os brancos o desprezavam. Jamais haveria de colocar o seu pedaço de madeira naquelas brasas. Tinha chegado o momento da vingança.
O último membro daquele triste grupo era um tipo mesquinho e interesseiro. Não fazia nada que não fosse por lucro. "Dá somente a quem te der", era o seu lema preferido. Hão-de pagar-me caro este pedaço de madeira, pensava.
Foram encontrá-los assim, imóveis, cada um para seu lado, com as próprias achas bem apertadas nos punhos e os membros entorpecidos. Não tinham morrido pelo frio exterior, tinham morrido pelo frio interior."
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Quem sabe! Talvez na nossa família, na nossa comunidade, à nossa volta, haja uma fogueira que está a morrer. Que fazemos com o pedaço de madeira que temos nas mãos?
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(Darci Vilarinho)
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Perdão e Esquecimento

Publicada por Observador@


"Mello conta a história de um pároco que estava farto duma beata que todos os dias vinha contar-lhe as revelações que Deus pessoalmente lhe fazia. Semana após semana, a boa senhora entrava em comunicação directa com o céu e recebia mensagem atrás de mensagem.
O padre, querendo desmascarar de uma vez por todas aquilo que de invencionice havia em tais comunicações, disse à mulher: "Olha, da próxima vez que vires a Deus, diz-lhe que, para me convencer de que é Ele que te fala, te diga quais são os meus pecados, aqueles que só eu sei!" Com isto, pensou o padre, a mulher vai-se calar para sempre.
Mas poucos dias depois, regressou a beata.
"Falaste com Deus?" - "Sim!" - "E disse-te os meus pecados?" - "Disse-me que não os podia dizer, porque os tinha esquecido! Não só perdoou os seus pecados, como também, depois de perdoados, os esqueceu! Ele perdoa-os absolutamente!"
Com esta resposta, o padre não soube se aquelas aparições eram verdadeiras ou não. Mas soube que a teologia daquela mulher era boa e profunda."

O "perdoou mas não esqueceu", parece uma forma humana de perdoar ou antes uma forma refinada de ressentimento e/ou de vingança?!


"Custa-nos perdoar aos outros porque nos custa perdoar a nós mesmos."

(Recolhido por J. L. Martin Descalzo em Blanco y Negro)


O Pacote de Biscoitos

Publicada por Observador@

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Uma jovem estava à espera do seu vôo, na sala de embarque de um grande aeroporto.
Como deveria esperar várias horas, resolveu comprar um livro para passar o tempo. Comprou, também, um pacote de biscoitos.
Sentou-se numa poltrona, na sala VIP do aeroporto, para poder descansar e ler em paz.
Ao lado da poltrona onde estava o saco de biscoitos, sentou-se um homem que abriu uma revista e começou a ler.
Quando ela pegou no primeiro biscoito, o homem também tirou um. Sentiu-se indignada mas não disse nada. Apenas pensou: “Mas que atrevido! Se eu estivesse com disposição dava-lhe um soco no olho, para que ele nunca mais se esquecesse deste atrevimento!
A cada biscoito que ela tirava, o homem também tirava um. Aquilo foi-a deixando cada vez mais indignada, mas não conseguia reagir.
Quando restava apenas um biscoito, ela pensou: “ah... o que vai esse abusador fazer agora?
Então, o homem partiu o último biscoito ao meio, deixando a outra metade para ela.
Aquilo era demais! Pegou no livro e nas restante coisas e dirigiu-se para a porta de embarque.
Quando se sentou confortavelmente numa poltrona, já no interior do avião, olhou para dentro da bolsa para tirar os óculos. Para sua grande surpresa, viu intacto o pacote de biscoitos que tinha comprado!
Sentiu imensa vergonha! Percebeu que quem estava errada era ela...Tinha-se esquecido que tinha guardado os biscoitos na sua bolsa.
O homem tinha dividido os biscoitos dele com ela, sem se sentir indignado, nervoso ou revoltado.
Entretanto ela tinha ficado muito transtornada, pensando estar a dividir os biscoitos dela com ele. E já não havia ocasião para se explicar... nem pedir desculpa!

Existem 4 coisas, que não se podem recuperar nunca:
- a pedra...depois de atirada!
- a palavra...depois de proferida!
- a ocasião…depois de perdida!
- o tempo...depois de passado!

Quando nos falta o bom senso no julgamento de actos e palavras, o desastre é uma constante nas nossas vidas.
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A impaciência e suas consequências

Publicada por Observador@


"Havia um menino que tinha um comportamento difícil de controlar. O seu pai deu-lhe um saco de pregos e disse-lhe que, cada vez que perdesse a paciência, pregasse um prego numa tábua que tinham em sua casa. No primeiro dia o menino pregou 37 pregos na tábua. Com o tempo foi diminuindo gradualmente. Ele descobriu que era mais fácil conter o seu comportamento do que colocar pregos na tábua. Finalmente, chegou o dia em que o menino não perdeu nunca a paciência. Ele contou esse facto ao seu pai, que sugeriu que agora tirasse um prego da tábua cada dia que ele se conseguisse conter. Os dias foram passando e o menino pôde, finalmente, contar ao seu pai que não haviam mais pregos na tábua. O pai pegou na mão do filho, levou-o até à tábua e disse: "Fizeste bem, meu filho, mas vês os buracos que ficaram na tábua... a tábua nunca mais será a mesma!"

Quando pronunciamos palavras de ódio, elas deixam, nos outros, cicatrizes como 'buracos na madeira'. Não importa quantas vezes diga que sente muito, a ferida continuará lá. Na verdade, uma ferida verbal é tão nefasta quanto uma ferida física."

(Fonte: revista Almanaque de Santa Zita 2010)

O Idiota e a Moeda

Publicada por Observador@


"Conta-se que numa aldeia do interior um grupo de pessoas se divertia com o maior idiota daquele lugar. Um pobre coitado, considerado pouco inteligente, vivia de pequenos biscates e esmolas. Diariamente eles chamavam o idiota ao bar onde se reuniam e ofereciam-lhe a escolha entre duas moedas: uma grande de 400 REIS e outra menor, de 2000 REIS. Ele escolhia sempre a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos. Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e perguntou-lhe se ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos. Respondeu o tolo: - Eu sei, ela vale cinco vezes menos, mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar a minha moeda.

Podem-se tirar várias conclusões dessa pequena narrativa:
A primeira: Quem parece idiota, nem sempre é.
A segunda: Quem eram os verdadeiros idiotas da história?
A terceira: Se fores ganancioso, acabas por estragar a tua fonte de rendimento.

Mas a conclusão mais interessante é: A percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito.
Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas sim, o que realmente somos."

O maior prazer de uma pessoa inteligente é armar-se em idiota diante de um idiota que se arma em inteligente!
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Assembleia na Carpintaria

Publicada por Observador@


"Contam que na carpintaria houve uma vez uma estranha assembleia. Foi uma reunião das ferramentas para acertar as suas diferenças.
O martelo exerceu a presidência, mas os participantes notificaram-lhe que teria que renunciar. Fazia demasiado barulho e, além do mais, passava todo o tempo golpeando. O martelo aceitou a sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir algo. Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez, pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais. A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse a trena, que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora a única perfeita.
Nesse momento entrou o carpinteiro, juntou o material e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, a trena e o parafuso. Finalmente, a rústica madeira se converteu num fino móvel. Quando a carpintaria ficou novamente só, a assembleia reactivou a discussão. Foi então que o serrote tomou a palavra e disse:
- Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o carpinteiro trabalha com as nossas qualidades, com os nossos pontos valiosos. Assim, não pensemos nos nossos pontos fracos, concentremo-nos antes nos nossos pontos fortes!
A assembleia entendeu que o martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar asperezas e a trena era precisa e exacta. Sentiram-se então como uma equipe capaz de produzir móveis de qualidade. Sentiram alegria pela oportunidade de trabalharem juntos.
É fácil encontrar defeitos. Qualquer um pode fazê-lo. Mas encontrar qualidades e ver atributos, isto é para poucos."

(Autor desconhecido)


O Espantalho

Publicada por Observador@


"Numa aldeia remota, vivia um lavrador muito avarento. Era tal a sua avareza que, quando um passarinho comia um grão de trigo encontrado no chão, ficava furioso e passava os dias a vigiar para que ninguém tocasse no seu campo.
Um dia teve uma ideia:
- Já sei, vou arranjar um espantalho. Assim afastarei os animais do meu campo.
Apanhou três canas e com elas fez os braços e as pernas, depois com palha deu forma ao corpo. Uma abóbora serviu de cabeça, dois bagos de milho, de olhos; a servir de nariz pôs uma cenoura e a servir de boca uma fiada de grãos de trigo.
Quando acabou o espantalho, colocou nele umas roupas rotas e feias e, com um golpe seco, espetou-o na terra. Mas reparou que lhe faltava um coração. Colheu uma pera, meteu-a entre a palha e foi para casa.
Lá ficou o espantalho movendo-se ao ritmo do vento.
Mais tarde, um pardal voou devagar pelo campo, a ver onde podia encontrar trigo. O espantalho, ao vê-lo, quis afugentá-lo dando gritos, mas o pássaro poisou numa árvore e disse:
- Deixa-me apanhar trigo para os meus filhinhos.
- Não posso! - respondeu o espantalho. Mas custava-lhe tanto ver o pardal a pedir comida que lhe disse:
- Podes apanhar os meus dentes que são grãos de trigo.
O Pardal apanhou-os e, de alegria, beijou a sua testa de abóbora.
O espantalho ficou sem boca, mas muito satisfeito com a sua acção.
Certa manhã, um coelho entrou no campo. Quando se dirigia para as cenouras, o boneco viu-o e quis meter-lhe medo, mas o coelho olhou para ele e disse:
- Quero uma cenoura, tenho fome!
Custava tanto ao espantalho ver o coelhito esfomeado que lhe ofereceu o seu nariz de cenoura.
Quando o coelho se foi embora, quis cantar de alegria, mas não tinha boca nem nariz para cheirar o perfume das flores... mas estava contente.
Mais tarde, apareceu o galo a cantar ao pé dele.
- Vou dizer à minha galinha que não ponha mais ovos para o dono deste campo, pois mata-nos de fome!
Num gesto o espantalho indica-lhe os seus olhos de milho, deixando o galo apanhá-los.
O galo foi-se embora muito agradecido.
Algum tempo depois, alguém se aproximou dele e disse:
- Espantalho, podes dar-me uma esmolinha, tu que és tão bom? O lavrador pôs-me na rua... sei que não podes ver-me! Sou um vagabundo que pede esmola!
O espantalho deu-lhe o seu fato, a única coisa que lhe podia oferecer.
O vagabundo, tomando as roupas velhas do espantalho, foi-se embora, muito contente.
Mais tarde, o espantalho notou que alguém chorava ao pé dele. Era um menino que procurava comida para a sua mãe que se encontrava doente. O dono do campo não o tinha querido ajudar.
O espantalho não podia dar-lhe palavras de conforto, mas podia oferecer-lhe a sua cabeça, uma abóbora grande que dava para alimentar o menino e sua mãe por algum tempo.
Quando o lavrador foi ao campo e viu o espantalho naquele estado, irritou-se muito e pegou-lhe fogo.
Os amigos do espantalho, ao verem como ardia, aproximaram-se e ameaçaram o lavrador, mas naquele momento caiu ao chão alguma coisa que pertencia àquele boneco: o seu coração de pera. O lavrador, rindo-se, comeu-a dizendo:
- Dizeis que vos deu tudo? Mas esta pera como-a eu!
Só que ao trincá-la notou uma mudança em si. O espantalho tinha-lhe comunicado a sua bondade.
Então o lavrador disse-lhes:
- Perdoem-me, daqui em diante acolher-vos-ei sempre!
Entretanto, o espantalho tinha-se transformado em cinzas e o fumo chegava até ao sol, convertendo-se no mais brilhante dos seus raios."

(De Imagens de fé)

A Tenda da Verdade

Publicada por Observador@


"Não podia acreditar nos meus olhos quando vi o nome da tenda: TENDA DA VERDADE.
Então ali vendiam verdade!
A correctíssima empregada perguntou-me que espécie de verdade desejava eu comprar: verdade parcial ou verdade plena.
Respondi que, naturalmente, verdade plena.
Não queria fraudes, nem apologias, nem racionalizações. O que desejava era a minha verdade nua, clara e absoluta.
A empregada conduziu-me a outra secção do estabelecimento, onde se vendia a verdade plena.
O vendedor que trabalhava naquela secção olhou-me compassivamente e apontou a etiqueta com o preço.
"O preço é muito elevado, senhor!"- disse-me.
"Quanto é?" - perguntei eu, decidido a adquirir a verdade plena a qualquer preço.
"Se você a levar..." - disse - "o preço consiste em não ter mais descanso durante o resto da sua vida!"
Saí da tenda entristecido. Tinha pensado que podia adquirir a verdade plena a baixo preço. Ainda não estou pronto para a Verdade! De vez em quando, anseio pela paz e pelo descanso. Ainda necessito de me enganar um pouco a mim mesmo com as minhas justificações e as minhas racionalizações...
Continuo ainda à procura do refúgio das minhas crenças incontestáveis."

(A. de Mello, O canto do pássaro, Sal Terrae, 1982)

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