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SÊ A MUDANÇA QUE QUERES VER NO MUNDO!
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O Espantalho

Publicada por Observador@


"Numa aldeia remota, vivia um lavrador muito avarento. Era tal a sua avareza que, quando um passarinho comia um grão de trigo encontrado no chão, ficava furioso e passava os dias a vigiar para que ninguém tocasse no seu campo.
Um dia teve uma ideia:
- Já sei, vou arranjar um espantalho. Assim afastarei os animais do meu campo.
Apanhou três canas e com elas fez os braços e as pernas, depois com palha deu forma ao corpo. Uma abóbora serviu de cabeça, dois bagos de milho, de olhos; a servir de nariz pôs uma cenoura e a servir de boca uma fiada de grãos de trigo.
Quando acabou o espantalho, colocou nele umas roupas rotas e feias e, com um golpe seco, espetou-o na terra. Mas reparou que lhe faltava um coração. Colheu uma pera, meteu-a entre a palha e foi para casa.
Lá ficou o espantalho movendo-se ao ritmo do vento.
Mais tarde, um pardal voou devagar pelo campo, a ver onde podia encontrar trigo. O espantalho, ao vê-lo, quis afugentá-lo dando gritos, mas o pássaro poisou numa árvore e disse:
- Deixa-me apanhar trigo para os meus filhinhos.
- Não posso! - respondeu o espantalho. Mas custava-lhe tanto ver o pardal a pedir comida que lhe disse:
- Podes apanhar os meus dentes que são grãos de trigo.
O Pardal apanhou-os e, de alegria, beijou a sua testa de abóbora.
O espantalho ficou sem boca, mas muito satisfeito com a sua acção.
Certa manhã, um coelho entrou no campo. Quando se dirigia para as cenouras, o boneco viu-o e quis meter-lhe medo, mas o coelho olhou para ele e disse:
- Quero uma cenoura, tenho fome!
Custava tanto ao espantalho ver o coelhito esfomeado que lhe ofereceu o seu nariz de cenoura.
Quando o coelho se foi embora, quis cantar de alegria, mas não tinha boca nem nariz para cheirar o perfume das flores... mas estava contente.
Mais tarde, apareceu o galo a cantar ao pé dele.
- Vou dizer à minha galinha que não ponha mais ovos para o dono deste campo, pois mata-nos de fome!
Num gesto o espantalho indica-lhe os seus olhos de milho, deixando o galo apanhá-los.
O galo foi-se embora muito agradecido.
Algum tempo depois, alguém se aproximou dele e disse:
- Espantalho, podes dar-me uma esmolinha, tu que és tão bom? O lavrador pôs-me na rua... sei que não podes ver-me! Sou um vagabundo que pede esmola!
O espantalho deu-lhe o seu fato, a única coisa que lhe podia oferecer.
O vagabundo, tomando as roupas velhas do espantalho, foi-se embora, muito contente.
Mais tarde, o espantalho notou que alguém chorava ao pé dele. Era um menino que procurava comida para a sua mãe que se encontrava doente. O dono do campo não o tinha querido ajudar.
O espantalho não podia dar-lhe palavras de conforto, mas podia oferecer-lhe a sua cabeça, uma abóbora grande que dava para alimentar o menino e sua mãe por algum tempo.
Quando o lavrador foi ao campo e viu o espantalho naquele estado, irritou-se muito e pegou-lhe fogo.
Os amigos do espantalho, ao verem como ardia, aproximaram-se e ameaçaram o lavrador, mas naquele momento caiu ao chão alguma coisa que pertencia àquele boneco: o seu coração de pera. O lavrador, rindo-se, comeu-a dizendo:
- Dizeis que vos deu tudo? Mas esta pera como-a eu!
Só que ao trincá-la notou uma mudança em si. O espantalho tinha-lhe comunicado a sua bondade.
Então o lavrador disse-lhes:
- Perdoem-me, daqui em diante acolher-vos-ei sempre!
Entretanto, o espantalho tinha-se transformado em cinzas e o fumo chegava até ao sol, convertendo-se no mais brilhante dos seus raios."

(De Imagens de fé)

A Tenda da Verdade

Publicada por Observador@


"Não podia acreditar nos meus olhos quando vi o nome da tenda: TENDA DA VERDADE.
Então ali vendiam verdade!
A correctíssima empregada perguntou-me que espécie de verdade desejava eu comprar: verdade parcial ou verdade plena.
Respondi que, naturalmente, verdade plena.
Não queria fraudes, nem apologias, nem racionalizações. O que desejava era a minha verdade nua, clara e absoluta.
A empregada conduziu-me a outra secção do estabelecimento, onde se vendia a verdade plena.
O vendedor que trabalhava naquela secção olhou-me compassivamente e apontou a etiqueta com o preço.
"O preço é muito elevado, senhor!"- disse-me.
"Quanto é?" - perguntei eu, decidido a adquirir a verdade plena a qualquer preço.
"Se você a levar..." - disse - "o preço consiste em não ter mais descanso durante o resto da sua vida!"
Saí da tenda entristecido. Tinha pensado que podia adquirir a verdade plena a baixo preço. Ainda não estou pronto para a Verdade! De vez em quando, anseio pela paz e pelo descanso. Ainda necessito de me enganar um pouco a mim mesmo com as minhas justificações e as minhas racionalizações...
Continuo ainda à procura do refúgio das minhas crenças incontestáveis."

(A. de Mello, O canto do pássaro, Sal Terrae, 1982)

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